domingo, 20 de Maio de 2012

BGC - Tema 4

AMEAÇAS À GEODIVERSIDADE
(Alterado / Republicado em 22 de Maio de 2012)


1. Contextualização

Tal como já ficou bem explicito em publicações anteriores neste blogue, a Geodiversidade “é um dos pilares da Natureza,” e, além do seu inegável valor intrínseco “é o suporte físico da biodiversidade.” [1]. De acordo com Nascimento et al, 2008, é definido como “[...] a variedade natural de aspetos geológicos (minerais, rochas e fósseis), geomorfológicos (formas de relevo, processos) e do solo. Inclui as suas coleções, relações, propriedades, interpretações e sistemas” [2]

Assim, nunca é demais relembrar, no sentido de entendermos o que são as “Ameaças”, que Geodiversidade - em geral - pode ser entendida como a variedade (a diversidade) de elementos e processos geológicos, sob qualquer forma, a qualquer escala e a qualquer nível de integração, sendo elementos, entre outros, as rochas, os fósseis, os estratos geológicos,  os solos, os recursos minerais, o petróleo, as águas subterrâneas, o carvão mineral mas, também, as estruturas geológicas, as paisagens e o relevo da superfície terrestre, e a geodiversidade, tal como a biodiversidade, e a diversidade cultural, constitui um valor fundamental do mundo em que vivemos. [3]

Segundo Brilha, 2005:40, “a maior parte das ameaças à geodiversidade advém, direta ou indiretamente, da atividade humana” e na sequência do parágrafo anterior “não existem grandes diferenças no que respeita às ameaças para com a geo ou a biodiversidade”[5]. Posto neste prisma fica bem claro que é imperativo e imprescindível a sua proteção, não apenas pelo lado ético, mas também porque é condição essencial para o  desenvolvimento sustentável e para melhor qualidade de vida e, está provado, a proteção não existe se nela não incluirmos geodiversidade.[3] Daí a urgente necessidade da identificação e diagnóstico das “Ameaças”, mote para este artigo.

Reconhecer que a Geodiversidade está sujeita a ameaças graves idênticas, e por vezes correlacionadas, às que pressionam a biodiversidade, implica, também, perceber um aspeto fundamental: “que a geologia apesar da resiliência “natural” não é imune às intervenções humanas por muito lentos e invisíveis ao olhar humano que os efeitos de tais intervenções possam parecer.” O facto de algumas dessas intervenções serem efetivas há tempo demais facilita a sua incorporação na leitura do sítio geológico quase como elementos dominantes, caso do “Cabo Mondego” que já aqui vos apresentei e que, sendo um caso em particular, é um bom ponto de partida para o entendimento deste artigo de ordem mais abrangente.

2. Ameaças

Desde sempre o planeta foi alvo de fenómenos geológicos e que, em milhões de anos, o alteraram de forma radical porquanto ocorrem na Terra desde a sua formação. Mesmo os acontecimentos mais destrutivos, como os sismos e as erupções vulcânicas fazem parte do normal funcionamento do nosso planeta. Todavia, com o crescimento da população humana, grandes áreas da superfície terrestre foram ocupadas. A exploração e ocupação desordenadas agravam os riscos naturais e impõem a necessidade de um ordenamento eficaz do território, seja em termos de simples ocupação, seja nas atividades [3].

Assim e fruto dessas atividades humanas constituem ameaças à geodiversidade (Brilha, 2005:40-51), a exploração dos recursos geológicos, o desenvolvimento de obras e infraestruturas, a gestão das bacias hidrográficas, a florestação, desflorestação e agricultura, as atividades militares, as atividades recreativas e turísticas, a colheita de amostras geológicas para fins não científicos e a iliteracia cultural [5]. Todavia, além destas e em escalas menores muitas outras contribuem para a destruição geológica e, aqui, não podemos esquecer a poluição dos solos, das águas (a todos os níveis dado que mesmo ao nível atmosférico são grandes os impactes nos solos, por força do ciclo), o ordenamento do território (principalmente junto à costa).

Um exercício interessante que convido a fazer é uma análise detalhada da publicação “Ameaças à biodiversidade” e a analogia flagrante entre as ameaças aí descritas e as aplicáveis à geodiversidade, acima referidas ou não, e prova clara de que (Brilha, 2005:40): “não existem grandes diferenças no que respeita às ameaças para com a geo ou a biodiversidade”[5]:


2.1 - Destruição, degradação e fragmentação do habitat - Esta é, por certo, a principal ameaça: o abate de árvores para obtenção de madeira é muito frequente nas zonas tropicais, bem como a destruição de florestas, para converter os terrenos em zonas agrícolas. Esta alteração de uso dos solos interfere de forma muito visível nos seus aspetos físico e químicos. A urbanização crescente, a construção de grandes redes viárias, portos e aeroportos, barragens e outras infraestruturas, com enormes volumes de massas movimentadas, fragmentadas e destruídas, e a drenagem de zonas húmidas são outras das principais causas de destruição e degradação. A construção de cada vez maiores infraestruturas rodoviárias e aeroportuárias tem contribuído para perdas elevadíssimas, assim como práticas destrutivas de uso e aproveitamento da terra: abate e exploração de florestas para produção de combustível, materiais de construção, produção de sal, exploração de areias costeiras e minerais e shrimp farming. Aspeto muito importante a merecer a atenção prende-se com as mudanças na utilização dos solos, que os fragmentam, degradam e destroem. Esta mudança de afetação deve-se, principalmente, ao crescimento demográfico e ao aumento do consumo por habitante, dois fatores que irão intensificar-se no futuro e gerar maiores pressões.


2.2 - As alterações climáticas – Entre outros originam mudança nos cursos dos rios resultando no aumento da sedimentação de sistemas marinhos, mudam a temperatura das águas, e até, por força daquelas, temos branqueamento dos corais, entre muitos outros. Sendo certo que o planeta Terra desde a sua origem sempre sofreu alterações profundas no clima, alternando entre períodos glaciares e outros de clima mais ameno, por diversos fatores (alterações na intensidade da radiação solar, na inclinação do eixo da Terra e na curvatura da sua orbita em torno do Sol, alterando o clima numa escala milenar), e ainda à disposição dos continentes, alterações nas correntes marinhas e de composição da atmosfera, bem como eventos como o impacto de meteoritos ou a erupção de vulcões, é também mais que certo que a ação do Homem nos últimos dois séculos (pior no séc. XX) tem produzido alterações climáticas, principalmente através da emissão de gases com efeito de estufa, que provocam um aquecimento global do clima. Esta alteração de clima, embora em processo muto lento, interfere com os processos geológicos.
2.2.1 - Efeito de Estufa – A atmosfera da Terra funciona em mecanismo similar relativamente ao planeta, pela existência de gases tão necessários à passagem dos raios solares e à retenção do calor que é irradiado, gases esses sem os quais o planeta teria temperaturas baixas e seria inabitável, destacando-se como principal gás o vapor de água. Todavia quando se fala de gases com efeito de estufa fala-se principalmente de seis compostos, sendo 3 naturais, o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), e os outros 3 fruto das atividades humanas: os hidrofluorcarbonetos (HFC), os perfluorcarbonetos (PFC) e o hexafluoreto de enxofre (SF6). [7]  O dióxido de carbono é o mais nefasto contribuindo para o aumento da temperatura global nos últimos 50 anos e serve como indicador comum para medir todos os gases com efeito de estufa sendo as emissões de todos os outros gases expressas em “equivalentes de dióxido de carbono”. [7]
2.2.2 - Consequências do aquecimento global - São inegáveis as modificações nos que a subida das temperaturas vai provocar, com consequências em perda de área florestal, não só pela seca como pelo aumento dos incêndios. “Daí a maior consequência advir do aumento da temperatura média, que subiu cerca de 0,6 ºC no século XX, e, até 2100, poderá aumentar entre 1,4 e 5,8 ºC, prevendo-se que o maior aquecimento ocorrerá em latitudes altas no hemisfério Norte e na Antártida” [4]. As alterações surgirão no nível do mar que “poderá subir entre 9 e 88 cm até 2100, pela “dilatação” dos oceanos e do derretimento de glaciares e calotas polares” [4]. Erosão costeira vai aumentar, pondo em risco povoações/infra-estruturas. Serão muito afetados recifes de coral, estuários e mangais.


2.3 - Sobre-exploração dos recursos geológicos – Algum locais e/ou materiais geológicos, são sobre exploradas como recurso, ao ponto de serem colocadas em risco de extinção, ou de se desequilibrar o ecossistema que neles vivem. Muitos assentam na valorização do aspeto económico do recurso geológico, cuja dimensão não renovável, finita não é considerada; perda parcial ou total do recurso já que a exploração só é interrompida no limite ou suspensa devido a crises de mercado, interrupção do processo natural desequilibrando as relações geológicas e enfraquecendo as estruturas face a outros fenómenos naturais (sismos), perda de acesso por parte das populações face ao risco das explorações e perda de valor estético, poluição e impacto visual com produção de ruídos e poeiras nocivos aos ecossistemas envolventes, perda de visibilidade e de interesse com a escavação da pedreira a dominar a imagem do sítio, são apenas algumas das ameaças diretas e indiretas que se podem elencar [3]. 


2.4 – A Poluição – Este assunto é de tal forma importante que a ele dedicamos um outro ponto intitulado “Poluição dos solos”. Esta resulta da introdução de poluentes no ambiente, daí resultando efeitos nocivos para a diversidade geológica. Os poluentes podem ser dos mais variados tipos: substâncias químicas, radioatividade, calor, luz, ruído ou energia. Na água a atividade humana produz efeitos adversos nas massas de água, desde os mares, rios e lagos às águas subterrâneas. Os poluentes da água incluem um largo espectro de químicos e agentes patogénicos e podem causar alterações nas propriedades físico-químicas da água, incluindo a sua temperatura, oxigenação, pH ou condutividade, alterações essas que se vão refletir, inequivocamente sobre a geodiversidade.


2.5 – Outros – Nunca será demais lembrar o que acima referimos (Brilha, 2005:40-51): "a exploração dos recursos geológicos, o desenvolvimento de obras e infraestruturas, a gestão das bacias hidrográficas, a florestação, desflorestação e agricultura, as atividades militares, as atividades recreativas e turísticas, a colheita de amostras geológicas para fins não científicos e a iliteracia cultural [5]. Todavia, além destas e em escalas menores muitas outras contribuem para a destruição geológica e, aqui, não podemos esquecer a poluição dos solos, das águas (a todos os níveis dado que mesmo ao nível atmosférico são grandes os impactes nos solos, por força do ciclo), o ordenamento do território (principalmente junto à costa)."

3 . Conclusão


Os fenómenos geológicos fazem parte da história do planeta e nele ocorrem desde a sua formação. “Mesmo os acontecimentos mais destrutivos, como os sismos e as erupções vulcânicas fazem parte do normal funcionamento do nosso planeta. Com o crescimento da população humana, grandes áreas da superfície terrestre foram ocupadas. A ocupação desordenada agrava os riscos naturais e impõe a necessidade de um ordenamento eficaz do território” [3]

No ritmo a que esta sociedade consumista caminha cada vez é mais difícil contornar os graves problemas associados às perdas de geodiversidade já não bastando “estabelecer limites à exploração dos recursos, reduzindo planos de lavra e elaborando planos de requalificação; importaria descobrir o verdadeiro custo dos produtos resultantes dessa exploração ponderando o valor económico em conjunto com o valor científico, estético, patrimonial, cultural e recreativo, o que eventualmente levaria à descoberta de outros materiais de substituição, menos agressivos para a geologia e assim se conseguiria reduzir a pressão na sobre exploração dos recursos geológicos.” [4]

______________________________________FIM

Fontes e Bibliografia:
[1] - http://paleoviva.fc.ul.pt/almafossil/Grafitos/Grafit01.htm, consultado em 16 de Maio de 2012;
[2] - LEITE DO NASCIMENTO, M. A. L. do; RUCHKYS, U. A.; MANTESSO-NETO, V. Geodiversidade, Geoconservação e Geoturismo – trinômio importante para a proteção do patrimônio geológico. São Paulo: Sociedade Brasileira de Geologia, 2008.
[5] - Brilha, José, 2005. Património Geológico e Geoconservação – A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica. Pg 40-51, Palimage. Imagem Palavra. Braga.
[6] - http://www.anoplanetaterra.org/, consultado em 19 de Maio de 2012;
[7] - http://www.terramater.pt/?pag=117, consultado em 20 de Abril de 2012

Ameaças - Poluição dos solos



____________________________ EM CONSTRUÇÃO ________________________________

segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Cabo Mondego


Cabo Mondego – Figueira da Foz 
Das pegadas de dinossauro ao maior e melhor afloramento do Jurássico da Europa


O tema em estudo – Geodiversidade - é, a exemplo do que já falamos em "Biodiversidade", um “conceito” recente. Tal como no usado para comparação Geodiversidade refere-se a “Diversidade Geológica” e é reconhecido e começou a ser divulgado recentemente, na década de 1990, por geólogos e geomorfólogos preocupados em estudar a natureza na vertente geológica. Não existem referências que permitam concluir quando o termo foi utilizado a primeira vez, mas “sabe-se que os primeiros trabalhos foram realizados na Tasmânia (Austrália) e principalmente no Reino Unido, em 1993, na Conferência de Malvern sobre Conservação Geológica e Paisagística” (BRILHA, 2005). [1]
Da pesquisa e leituras muito teríamos, em resultado, a dizer sobre “Geodiversidade” e os indicados, também, para estudo de “Geoconservação” e “Património Geológico”.
Todavia não vamos cair nessa tentação dado que o material serviu de “ponto de partida” para outras descobertas e o caso que se pretende apresentar retrata na prática todas as preocupações nas vertentes em estudo e merece divulgação e conhecimento.

As “lutas” a travar pelo reconhecimento de locais são inglórias e apenas muito recentemente se começou a atribuir importância. O desprezo com que os locais foram olhados e, até, o desprezo com que os defensores (“tolinhos” das pedras) foram encarados espelham o pouco reconhecimento.
Venho trazer-vos ao conhecimento uma das lutas de nomes conhecidos nas ciências lusas, como Galopim de Carvalho e Helena Henriques, a par com um dos mais ricos locais da Europa em matéria de Riqueza, Geodiversidade, Património Geológico e urgente necessidade de Geoconservação:

Cabo Mondego:

Saliência da costa ocidental portuguesa, a noroeste da cidade da Figueira da Foz e da foz do rio Mondego, no prolongamento da serra de Buarcos. [2]
Situa-se a cerca de 200Km a norte de Lisboa, no bordo ocidental da Serra da Boa Viagem, ao longo da costa, entre praias da Murtinheira e da Figueira da Foz. Constitui testemunho irrepetível e insubstituível para a compreensão da história geológica de Portugal; representa, de forma particularmente completa, alguns dos mais importantes episódios da história da Terra ocorridos durante o Jurássico, para intervalo de tempo que se situa aproximadamente entre os 185 e os 140 milhões de anos, o que justifica, a nível internacional, a relevância da sua classificação, conservação e divulgação.
Data de 1884 a primeira referência conhecida de pegadas nas falésias do Cabo Mondego. Jacinto Pedro Gomes (JPG), ao elaborar um Relatório acerca das minas do Cabo Mondego, foi informado da presença de moldes de pegadas. Mostrou desenhos destas a B.Geinitz, que lhe disse deverem ser de dinossauro; Karl Zittel corroborou aquela opinião. Louis Dollo atribuiu-as a Ornitópodes.

Helena Henriques, geóloga:
É urgente impedir a delapidação” 

Esta reconhecida geóloga muito se bateu pelo reconhecimento, nacional e internacional, do valor histórico-científico das falésias jurássicas do Cabo Mondego. Chegou a levar a questão que é a “menina dos seus olhos” ao “VI Simpósio Internacional do Jurássico”, em Itália, onde existe já grupo de pressão para que a UNESCO reconheça este como um Património da Humanidade, atendendo à sua função de “referência de tempo à escala global”. Helena Henriques explicou que “é um pouco como um templo egípcio, só que este é milhões de anos mais antigo”.

No sector ocidental da Serra da Boa Viagem (Cabo Mondego) aflora uma espessa série de sedimentos, que registam, de forma notável, alguns dos principais acontecimentos da História da Terra. O intervalo de tempo registado situa-se aproximadamente entre os 180 e os 140 milhões de anos, isto é, refere-se ao Jurássico Médio e Superior.
Para o intervalo de tempo considerado, os marcadores estratigráficos normalmente utilizados em sedimentos marinhos são as amonites, um grupo extinto de moluscos cefalópodes, que se assemelhavam às actuais lulas e chocos. A ocorrência destes fósseis no Jurássico Médio do Cabo Mondego (flanco norte da Serra da Boa Viagem) é particularmente relevante, na medida em que, com base na sua distribuição vertical, se conseguem precisar as escalas do tempo geológico.
Os locais com registo sedimentar expressivo e com conteúdo elevado em amonites são de grande interesse para as Ciências da Terra, dado que testemunham com rigor determinado intervalo de tempo da História da Terra. O Jurássico Médio do Cabo Mondego apresenta essa particularidade, sendo há muito considerado referência, a nível internacional, nas discussões da especialidade.
O Jurássico Superior, cujos sedimentos assentam sobre o Jurássico Médio (sector sul da Serra da Boa Viagem), proporciona a observação de corpos sedimentares característicos de ambientes de transição (recifais, lacustres, deltaicos).
O registo sedimentar inclui uma grande variedade de estruturas sedimentares bem definidas, acompanhadas de associações diversificadas de fósseis típicos de diferentes ambientes (corais, equinodermes, bivalves, braquiópodes, gasterópodes, crinóides, restos vegetais). É justamente nesta posição estratigráfica (Oxfordiano) que, em 1884, foram reconhecidas várias pegadas de dinossaúrios terópodes, atribuídas a megalosaurídeos."[3]


"A História Geológica do nosso país durante os tempos jurássicos está inscrita nas falésias do Cabo Mondego. 
Preserve-a porque ela não se repete." 

Para Helena Henriques, lutadora pela classificação, sobretudo, para impedir “a delapidação” deste património comum de invulgar interesse e valor histórico-científico. “O emparedamento da zona frente ao restaurante Teimoso, por exemplo, a ser continuado pela linha da Marginal, significaria a destruição das falésias que restam”, afirma, acrescentando porém que “a vulnerabilidade face à urbanização, daquela área”, é outra, senão a principal, das preocupações. 

Em 1996, a UNESCO declarou o Cabo Mondego como estratotipo do limiar Aaleniano-Bajociano, os dois subperíodos em que se divide o Jurássico médio, período ocorrido entre há 180 milhões e 151 milhões de anos[3]. A razão da distinção é de fácil compreensão. Nas sucessivas camadas geológicas das falésias do Cabo Mondego são visíveis diversos elementos fósseis conservados: pegadas de dinossauros, amonites (cefalópodes fósseis de concha espiralada) e vegetais, pelo que qualquer descoberta ou metodologia de investigação só será validada após comparação com o Cabo Mondego, transformando este local num “marcador de tempo com valor global”[3]. O caricato, porém, é que apesar do estatuto internacional, as falésias morrem de esperar pela classificação até porque os primeiros pedidos datam dos anos 70, e Helena Heniques declarou publicamente acreditar que é “a falta de cultura científica da população” que tem permitido “a inércia de quem manda”, um motivo aliado aos alegados “interesses económicos a que a Cimpor não é alheia”. [3]

Um dos motivos importantes a avaliar é, porquê neste local, porquê no Cabo Mondego? Pelos paleontólogos é defendido que que, há cerca de cento e cinquenta milhões de anos, a costa portuguesa tinha um aspeto bem diferente. “Seria, então, constituída por lagoas e deltas de rios, que inundavam uma vasta região pantanosa, com águas pouco profundas, calmas e mornas. Devido às condições climatéricas, aqui se concentrava uma rica vegetação, que atraía os dinossauros, na sua maioria vegetarianos. Mas estas características foram benéficas para a História ainda por outra razão. Elas criaram as melhores condições para uma fossilização duradoura dos animais mortos. A comprovar esta teoria, estão as centenas de achados fósseis de plantas, peixes, conchas, escamas, tartarugas, crocodilos e outros animais de menor porte, que frequentaram a região, nas épocas de ouro dos dinossauros, Jurássico Superior e Cretáceo. Por isso, toda a zona Oeste é hoje um verdadeiro santuário, que segundo os estudiosos deve ser alvo de uma preservação “total e imediata”. Impedir a construção clandestina, não vazar lixos, evitar a abertura de acessos mesmo até ao areal das praias, são algumas das medidas exigidas pelos defensores daquele património.”[3]

Perante estes factos e estas lutas devemos preocupar-nos e ser solidários principalmente tendo em vista o legado a deixar aos vindouros. Com a classificação de locais como este “Cabo Mondego”, quer como Monumento Natural quer como Património da Humanidade (através da UNESCO), “fica garantida a preservação de um local, onde facilmente se compreendem questões como a evolução biológica e a configuração do planeta, ao longo de milhões de anos”. [3]

Para já, no que respeita à classificação pela UNESCO, não há mais do que um grupo de pressão, mas a concretizar-se, este seria um passo dos passos mais importantes.

Apoiem e divulguem esta causa!

                                                                            FIM

Fontes e Bibliografia:
[1] – Brilha, J. (2005). Património Geológico e Geconservação. Braga: Palimago
[2] - Cabo Mondego. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-05-07]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$cabo-mondego>
[3] - http://www.progeo.pt/jornais/cabo_mond4.htm, [Consult. 2012-05-07]

BGC - Tema 3



Geodiversidade. Conceito e valores
Geodiversidade, Geoconservação e Património Geológico

José Carlos Leite


Fará sentido, em termos de conservação,
reduzir a Natureza à sua componente viva?
Não estarão o mundo biótico e abiótico
inexoravelmente interligados?

Vivemos numa zona onde devemos ter particular atenção sobre os assuntos aqui abordados, dada a ação nefasta do homem nestes temas: o Baixo Mondego.

Temo-nos habituado a encarar o Ambiente apenas numa perspetiva dos seres vivos e a sensibilidade relativamente aos inertes é, ainda, muito residual… Mas o Planeta não é só animais e plantas, não é só vida e, mesmo para a sobrevivência destes, os inertes ocupam papel fulcral. A ação do Homem também é nefasta sobre a Terra e sobre os materiais que o constituem e temos pela frente graves problemas para resolver relacionados com o uso dos solos e dos seus constituintes e, lamentavelmente, estes não se reduzem aos efeitos sobre a diversidade biológica.
Ora é exatamente este o campo de ação da Geodiversidade, da Geoconservação e do Património Geológico, áreas a serem encaradas com cada vez maior atenção. Estes novos termos, com poucas décadas, têm vindo a surgir e a ampliar o seu significado.
É, por isso, importante que se faça aqui uma abordagem diferenciando os três termos em causa e outros associados, identificando e compreendendo o sentido evolutivo do respetivo significado. Este é o mote para a abordagem que vamos fazer a seguir:

Antecedendo os termos que vamos analisar surge a ciência Geologia, de definição:
“...do grego γη- (ge-, "a terra") e λογος (logos, "palavra", "razão"), é a ciência que estuda a Terra, sua composição, estrutura, propriedades físicas, história e os processos que lhe dão forma. É uma das ciências da Terra. A geologia foi essencial para determinar a idade da Terra, que se calculou ter cerca de 4,6 bilhões de anos e a desenvolver a teoria denominada tectônica de placas segundo a qual a litosfera terrestre, que é rígida e formada pela crosta e o manto superior dispõe-se fragmentada em várias placas tectônicas as quais se deslocam sobre a astenosfera que tem comportamento plástico.”[1]

Também não é demais, e já em tópico anterior abordamos esta questão, relembrar outros conceitos cruciais: falar do “Valor da Geodiversidade”, falar de “valor” é uma questão mais profunda do que à primeira vista parece. Relacionados com “valor” temos, segundo Vaz e Delfino, 2010, que perceber como se encadeiam os seus elementos constituintes surgindo, assim, os conceitos de “valor extrínseco” e “valor intrínseco”:
- o extrínseco é o valor derivado, por exemplo, o valor instrumental das coisas por causa da sua utilização atual ou potencial e o valor artístico que deriva da apreciação por terceiros, podendo ser instrumental, por causa da sua utilização atual ou potencial, ou inerente, como as obras de arte ou outros objetos de apreciação - caso dos objetos naturais,
- e o “valor intrínseco”, de difícil explicação, é o valor que uma determinada coisa tem devido á sua própria natureza, e as coisas são “intrinsecamente” valiosas, sem outras razões, porque meramente existem motivações para as promover, apreciar ou proteger devido à sua própria natureza.
O valor instrumental tem, assim, a ver com a nossa vontade, interesses e desejos e o intrínseco tem a ver com aquilo que a coisa representa e não pelo modo de uso.

É nessas suas vertentes que temos que enquadrar o termo “valor”, associado ao que vamos expor.

1. Geodiversidade

Não podemos considerar existir uma definição abrangente e única tal é a amplitude da sua aplicação porque, segundo Brilha, 2005:22, ela “resulta de uma multiplicidade de fatores e da relação entre eles”. Entendemos que é por essa multiplicidade que ainda não temos uma definição consensual, o que acarreta que as diversas especialidades vão adotando a definição ao seu campo de atuação com enfase para os aspetos que mais lhe dizem respeito. Para este autor os primeiros responsáveis da diversidade são os cerca de 90 elementos químicos, sendo os minerais resultado da combinação desses produtos - conhecendo-se quase 4000 (Wenk&Bulakh,2004). A associação dos minerais dá origem às rochas. Depois de formadas as rochas podem formar dobras e fraturas sobre as quais atuam os agentes atmosféricos. Depois o clima, a pressão, a presença da água dão, também, o seu contributo. A estes acrescem outros fatores.
Uma simples combinação de todas as situações descritas dará uma infinidade de resultados diferentes. E por aqui se entende como encontramos elementos tão distintos.
Por outro lado o termo começou a ser usado recentemente, na década de 1990, por geólogos e geomorfólogos preocupados em estudar a natureza na vertente geológica. Não existem referências que permitam concluir quando o termo foi utilizado a primeira vez, mas “sabe-se que os primeiros trabalhos foram realizados na Tasmânia (Austrália) e principalmente no Reino Unido, em 1993, na Conferência de Malvern sobre Conservação Geológica e Paisagística” (BRILHA, 2005).
Assim sendo e em termos evolutivos apresentamos uma tabela resumo da cronologia:


Deixámos, então, algumas das definições que fomos encontrando nas nossas pesquisas, sendo certo que a base se prende com a variedade de ambientes geológicos, fenómenos e processos ativos que dão origem a paisagens, rochas, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na Terra:
A geodiversidade (ou diversidade geológica) é a variedade (a diversidade) de elementos e de processos geológicos, sob qualquer forma, a qualquer escala e a qualquer nível de integração, existente no planeta Terra (do grego gê, Terra + latim diversitate, diversidade). O conceito de geodiversidade é um conceito integrador fundamental que engloba todos os materiais e fenómenos geológicos que dão corpo ao Planeta e o modificam (a sua estrutura e a sua superfície) e que, em conjugação com a biodiversidade, define a essência material da Terra e o modo como ela se transforma e evolui.” [3]
 “Entende-se por geodiversidade a variação natural dos aspectos geológicos (rochas, minerais, fósseis), geomorfológicos (formas e evolução de relevo) e do solo. É importante ressaltar que não inclui apenas elementos abióticos da natureza, mas também os bióticos (ARAÚJO, 2005).
Azevedo (2007) define geodiversidade como variação litológica das rochas, processos geológicos, diversidade dos solos e como os afloramentos estão dispostos na superfície da Terra.
Para a Associação Européia para a Conservação do Patrimônio Geológico (PROGEO) e para a Sociedade Real da Conservação da Natureza do Reino Unido, geodiversidade consiste na variedade de ambientes geológicos, fenômenos e processos ativos geradores de paisagem (relevo), rochas, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais, bases de vida na Terra (AZEVEDO, 2007).
A geodiversidade é o resultado dos processos interativos entre a paisagem, a fauna, a flora e a nossa cultura. A geologia e a geomorfologia determinam a distribuição dos habitats, das espécies e dita como o homem organiza seu espaço geográfico. Porém, o interesse pela geodiversidade ainda é inferior ao interesse pela biodiversidade por parte da sociedade (ARAÚJO, 2005).” [2]

2. Património Geológico
 
“O conjunto dos aspetos e de exemplos concretos de geodiversidade, aos mais diversos níveis, que, por esta ou por aquela razão, se entendeu salvaguardar por meio de medidas especiais de proteção, tal como consignadas na legislação específica de cada país.” [3]
Para perfeito entendimento deste ponto nada como demonstrar: nesse sentido, de clarificar a importância, abordaremos em publicação a seguir, o caso do "Cabo Mondego", cuja leitura se aconselha, onde demonstraremos essa importância e provaremos o que é Património Geológico.

3. Geoconservação
 
Em primeiro lugar há que entender o porquê da necessidade da Geoconservação e a resposta está encerrada nos múltiplos valores (ver introdução sobre “valor”) que a “Diversidade geológica” tem (Brilha, 2005):
- valor intrínseco, valores culturais (espirituais, arqueológico, folclore, sentido de lugar), valores estéticos (paisagem, turismo, lazer, voluntariado) valores económicos (energia, minerais, materiais, fósseis), valores funcionais (Construção e suporte de infraestruturas, Armazenamento e reciclagem, Saúde, Incineração, Controle da poluição, Química da água, Funções do solo, Funções do geossistema, Funções do ecossistema), valor cientifico e educativo (investigação, história, monitorização, educação e formação). 
Assim, são objetivos da Geoconservação “Todas e quaisquer ações empreendidas no sentido de preservar e de defender a geodiversidade.” [3]

Entendido o que é a Geodiversidade e o que é o Património Geológico, facilmente se conclui que são, assim e agora, um valor máximo a proteger e não apenas naqueles locais e aspetos geológicos pela sua magnificência e, por isso mesmo, expressamente classificados e protegidos por lei.
Há que proteger é a geodiversidade e sítios onde estão registrados a história geológica (ex: Cabo Mondego, Figueira da Foz) do Planeta e não apenas o património geológico.
Só este respeito poderá assegurar a gestão equilibrada dos recursos geológicos (por exemplo: carvão, petróleo, areia para construção), a utilização racional dos recursos geo-hídricos (exemplo: águas subterrâneas), a proteção eficaz nos ambientes naturais para usufruto e bem-estar de todos, hoje e no futuro.

Um dos primeiros e importantes passos para a Geoconservação é o conhecimento: a inventariação geológica completa do território português foi recentemente concluída sob coordenação do Departamento de Ciências da Terra da Escola de Ciências da Universidade do Minho e é de importância científica e estratégica fundamental.
Segundo José Brilha, docente e coordenador do projeto, que envolveu mais de 70 cientistas de universidades e associações e a Fundação para a Ciência e Tecnologia, “já existia um levantamento feito ao nível da fauna e da flora, mas era fundamental classificar locais de valor abiótico [influências que os seres vivos recebem num ecossistema], com interesse científico, revelando a importância de ser gerido e preservado pelas autoridades nacionais que tratam da conservação da natureza”.
Para José Brilha há locais que não devem ser destruídos, pois são testemunhos científicos dos acontecimentos-chave que marcaram a história do planeta, nomeadamente do território português.
O projeto dá a Portugal os instrumentos necessários para implementar uma política de geoconservação, com base neste conjunto de locais que correspondem às ocorrências da geodiversidade com valor científico. Em Portugal tínhamos um ligeiro atraso neste campo, pelo que agora estamos em condições de comparar o nosso património geológico com o dos outros países. Aliás, para a sua área geográfica, Portugal é dos países europeus com maior geodiversidade.

5. Conclusão
 
Assim sendo e em conclusão, a conservação de elementos do Património Geológico constitui uma necessidade para a manutenção da qualidade de vida de todas as espécies que habitam o planeta Terra.
A vida depende da Geodiversidade e, além disto, a conservação destes elementos reveste-se de um valor científico incalculável, uma vez que eles guardam a explicação para origem e evolução deste planeta e de todas as formas de vida que nele habitam. 


                                                                          FIM
Bibliografia e Fontes:
[1] - http://pt.wikipedia.org/wiki/Geologia, consultado em 5 de maio de 2012
[2] – http://geoconservacao.blogspot.pt/p/geodiversidade.html, consultado em 6 de maio de 2012
[3] - http://pt.wikipedia.org/wiki/Geodiversidade, consultado em 5 de maio de 2012
- Brilha, J. 2005. Património Geológico e Geoconservação – A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica. Palimage. Imagem Palavra. Braga.
- Brilha, J. 2012. Geodiversity, geoconservation and sustainable development. Conferência em Sinaia. Earth Sciences Department University of Minho. Braga. Portugal.
- Vaz, S. & Delfino, A. (2010). Livro de Ética e Cidadania Ambiental. UAb.

quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Notícia


“IPCC da biodiversidade” tem criação aprovada
Agência FAPESP 

A Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês) teve sua criação aprovada no sábado (21/04), na Cidade do Panamá, depois de vários anos de intensas discussões internacionais.

O IPBES é um painel intergovernamental que terá a função de fazer com que o conhecimento científico acumulado sobre biodiversidade seja sistematizado para dar subsídios a decisões políticas em nível internacional. A cidade de Bonn (Alemanha) foi escolhida para sediar o secretariado do IPBES. O novo órgão teve sua implantação definida em junho de 2010 em uma reunião em Busan (Coreia do Sul) e sua criação foi ratificada em outubro de 2010, durante a 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP10), realizada em Nagoia (Japão) e posteriormente referendada na Reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas. Em outubro de 2011, a primeira sessão plenária IPBES foi realizada em Nairóbi (Quênia), na sede do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

De acordo com o coordenador do encontro no Panamá, Robert Watson, que é conselheiro científico do Departamento para o Meio Ambiente, Alimentos e Negócios Rurais do Reino Unido, embora várias organizações e iniciativas contribuam para melhorar o diálogo entre gestores e comunidade científica no campo da biodiversidade, o IPBES se estabelecerá como uma nova plataforma, reconhecida tanto por cientistas como por gestores, a fim de enfrentar as lacunas existentes e fortalecer a interface entre ciência e poder público em relação aos serviços ecológicos.
Hoje, a biodiversidade venceu. Mais de 90 governos estabeleceram com sucesso a interface entre a ciência e a política pública para todos os países. A biodiversidade e os serviços ecológicos são essenciais para o bem-estar da humanidade. Essa plataforma irá gerar conhecimento e nos dará capacidade de protegê-los para as gerações futuras”, afirmou Watson.

A plataforma foi aprovada por 91 países que participaram da reunião. Apenas Bolívia, Egito e Venezuela deixaram de assinar o acordo. Segundo Irina Bokova, diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a criação do IPBES algumas semanas antes da Conferência Rio+20 é um forte sinal de que há um progresso significativo no que diz respeito à conservação da biodiversidade.
Espero que esse órgão permita que a biodiversidade seja levada em conta nas estratégias de desenvolvimento sustentável, assim como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, tem feito nos últimos 20 anos em relação às alterações do clima. A perda de biodiversidade é um indicador importante das mudanças que estão afetando o planeta”, afirmou.

Segundo o documento assinado no Panamá, as funções centrais do IPBES consistirão em: identificar e priorizar informação científica necessária para as políticas públicas e para catalisar esforços na geração de novo conhecimento; realizar avaliações regulares do conhecimento sobre a biodiversidade e os serviços ecológicos e suas interligações; apoiar a formulação e a implementação de políticas ao identificar ferramentas e metodologias relevantes; e priorizar a capacitação para o aprimoramento da interface entre ciência e política e fornecer financiamento e apoio para as necessidades de alta prioridade ligadas a suas atividades imediatas.

Mais informações: www.ipbes.net

sábado, 21 de Abril de 2012

Notícia


Bona será a sede do novo painel internacional para a biodiversidade
20.04.2012
Helena Geraldes


(Texto e imagem original em: http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1542898)

"O novo organismo internacional que vai dar uma resposta global à perda de biodiversidade e dos ecossistemas do planeta, o IPBES, ficará com a sede em Bona, na Alemanha, foi decidido nesta sexta-feira numa conferência internacional.


Especialistas de todo o mundo estão reunidos até amanhã, sábado, na cidade do Panamá para pôr de pé a Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e os Serviços dos Ecossistemas (IPBES), organismo que recebeu “luz verde” da Assembleia-Geral das Nações Unidas a 20 de Dezembro de 2010. Portugal é representado nas negociações por Henrique Miguel Pereira, investigador do Centro de Biologia Ambiental (CBA) da Universidade de Lisboa.
Este painel independente vai, em grande medida, espelhar o Painel Intergovernamental das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (IPCC), que tem promovido o conhecimento global sobre as alterações climáticas, fazendo a ponte entre os investigadores e as soluções no terreno. O IPBES vai analisar e dar consistência aos estudos científicos de institutos de investigação espalhados pelo mundo e com eles elaborar relatórios para os governos, com o estado, a classificação e as tendências de espécies e ecossistemas e ainda as respostas políticas necessárias.
“A estrutura institucional da plataforma está a ser negociada”, diz hoje uma nota do CBA, nomeadamente como será feita a avaliação da biodiversidade e ecossistemas do planeta. Além disso, a reunião no Panamá está a discutir a “forma de capacitar cientificamente os países em vias de desenvolvimento e estabelecer a forma de nomeação de cientistas para os diferentes grupos de trabalho, bem como as contribuições financeiras de cada país”. 
Henrique Miguel Pereira considera que “este é um momento importante para a comunidade científica, que ao longo das últimas duas décadas tem estudado as alterações globais da biodiversidade e alertado para o impacto destas alterações no bem-estar humano”. Mas ainda há muito trabalho para fazer. “Agora vamos estabelecer um calendário para a avaliação científica dos principais problemas e trabalhar para que os países se comprometam a implementar as conclusões dessa avaliação”, acrescentou.
“A biodiversidade não conhece fronteiras e os ecossistemas também não: um grou (Grus grus) avistado durante o Inverno em Portugal pode ser avistado, no Verão seguinte, na Escandinávia ou na Sibéria; a Amazónia, uma floresta húmida cuja biodiversidade se mantém, em grande medida, desconhecida, estende-se ao longo de sete milhões de quilómetros quadrados, entre nove países sul-americanos”, lembra o CBA. 
“O IPBES representa um grande avanço em termos de organização de uma resposta global à perda de organismos vivos e de florestas, rios, recifes de coral e outros ecossistemas”, comentou Achim Steiner, director-executivo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, na altura da criação do IPBES, em Dezembro de 2010.
Depois de dois anos de negociações com os países do Sul, liderados pelo Brasil - que receavam um processo controlado pelo Norte e um potencial entrave ao seu desenvolvimento -, o princípio da criação do IPBES foi aprovado em Junho de 2010 na Coreia do Sul. Mas foi a adopção em Nagoia (Japão), em Outubro desse ano, de um acordo sobre a partilha dos benefícios de algumas indústrias biogenéticas com os países do Sul que permitiu levantar as últimas reticências, explicou à AFP Salvatore Arico, especialista em biodiversidade na Unesco, associada a este painel.
Em Nagoia os governos adoptaram ainda um novo plano estratégico com metas para travar a perda da biodiversidade até 2020. Por exemplo, os governo aceitaram aumentar a superfície das áreas protegidas de 12,5% para 17% da superfície da Terra e passar as áreas marinhas protegidas do actual 1% para 10%.
De acordo com a ONU, o actual ritmo de perda das espécies, causado pelas actividades humanas, é "mais de cem vezes superior ao da extinção natural". Hoje estão ameaçadas de extinção ao nível mundial uma em cada três espécies de anfíbios, mais de uma espécie de aves em cada oito, mais de um mamífero em cada cinco e mais de uma espécie de conífera em cada quatro."

sexta-feira, 20 de Abril de 2012

BGC - Tema 2


Ameaças à Biodiversidade


A biodiversidade ou diversidade biológica é a 
“variabilidade entre organismos vivos de todas as origens [...]; 
compreende a diversidade dentro de cada espécie, entre espécies e dos ecossistemas” 
(Convenção da Diversidade Biológica).
A Terra está a perder biodiversidade a uma taxa sem precedentes. 
No Dia Internacional da Biodiversidade, 22 de Maio, as alterações climáticas 
voltam a constituir a preocupação central assumindo-se como uma das 
maiores ameaças à diversidade de vida no Planeta, 
juntamente com a destruição de habitats, poluição e 
proliferação de espécies invasoras.” [5]
(Quercus, em 22 de Maio de 2007)


1 - Introdução

Já fomos aflorando, em artigos anteriores, algumas das ameaças à biodiversidade. A sociedade deve adquirir, a escala global, consciência e responsabilidade dos efeitos nefastos das mais diversas atividades sobre a diversidade biológica e riscos que os nossos comportamentos têm para a mesma.
Relembro aqui que, na publicação de 28 de março, intitulada “Biodiversidade no Mondego” se refere, aplicável ao local: “Entre os principais fatores de perturbação, degradação e destruição dos ecossistemas aquáticos e terrestres associados contam-se: desenvolvimento urbano e industrial, desenvolvimento agrícola, construção de barragens, extração ilegal de areias, atividades lúdico-recreativas, atividade florestal, fogos florestais, invasão de espécies exóticas, caça e a pesca.”. [1]

Mas não são só este ou similares sistemas que estão ameaçados porque a biodiversidade não se confina só a eles. Daí, no artigo publicado em 30 de Março e denominado “Valores da Biodiversidade” se referir que”(…) deve saber-se quais e o que são os seus pontos críticos: "um ponto crítico (hot spot) de Biodiversidade é um local com muitas espécies endêmicas. Ocorrem geralmente em áreas de impacto humano crescente. A maioria deles está localizada nos trópicos. Como pontos importantes destacámos o Brasil, que tem 1/5 da Biodiversidade mundial, com 50 000 espécies de plantas, 5 000 de vertebrados, 10-15 milhões de insetos, milhões de micro-organismos, e a a Índia, que apresenta 8% das espécies descritas, com 47 000 espécies de plantas e 81 000 de animais.” [2]
Segundo Nicolau, 2012, “depois de conhecermos e sentirmos o que é o Conceito e os múltiplos Valores da Biodiversidade, o passo seguinte é conhecer quais as Ameaças à Biodiversidade.” A abordagem que se segue é a resposta a esse desafio.


2 - Síntese das principais ameaças

Devem ser preocupantes para o ser humano, em geral, e para os decisores, em particular, as taxas alarmantes de degradação de habitats e de extinção de espécies. São muitas as ameaças a ter em conta e cada dia surgem novas formas nocivas à diversidade biológica: a difusão de espécies alóctones invasivas; a poluição do ambiente natural e dos habitats; a mundialização, que aumenta a pressão devida ao comércio, e, até, a má governação (incapacidade de reconhecer o valor económico do capital natural e dos serviços ecossistémicos). Assim, a destruição, degradação e fragmentação dos habitats, as alterações climáticas, a poluição, a sobre-exploração dos recursos, a introdução de espécies exóticas e o aumento na dispersão de doenças contam-se entre as principais ameaças e as seguintes são as mais conhecidas e estudadas, sem prejuízo de outras que, embora, com menos gravidade todos os dias deixam marcas indeléveis (e irreversíveis) sobre as espécies:


2.1 - Destruição, degradação e fragmentação do habitat - Esta é, por certo, a principal ameaça: o abate de árvores para obtenção de madeira é muito frequente nas zonas tropicais, bem como a destruição de florestas, para converter os terrenos em zonas agrícolas. Estes dois fatores são os maiores responsáveis pela perda de biodiversidade. A urbanização crescente, a construção de grandes redes viárias, portos e aeroportos, barragens e outras infraestruturas e a drenagem de zonas húmidas são outras das principais causas de destruição e degradação do habitat. A construção de cada vez maiores infraestruturas rodoviárias e aeroportuárias tem contribuído para perdas elevadíssimas, assim como práticas destrutivas de uso e aproveitamento da terra: abate e exploração de florestas  para produção de combustível, materiais de construção, produção de sal, exploração de areias costeiras e minerais e shrimp farming. Aspeto muito importante a merecer a atenção prende-se com as mudanças na utilização dos solos, que fragmentam, degradam e destroem os habitats. Esta mudança de afetação deve-se, principalmente, ao crescimento demográfico e ao aumento do consumo por habitante, dois fatores que irão intensificar-se no futuro e gerar maiores pressões.


2.2 - As alterações climáticas – responsáveis pela destruição de inúmeros habitats e organismos, perturbadoras dos ciclos de reprodução, obrigam os organismos móveis a deslocar-se, originam mudança nos cursos dos rios resultando no aumento da sedimentação de sistemas marinhos, mudam a temperatura das águas, resultando na mudança dos habitats, e até, por força daquelas, temos branqueamento dos corais, entre muitos outros. Sendo certo que o planeta Terra desde a sua origem sempre sofreu alterações profundas no clima, alternando entre períodos glaciares e outros de clima mais ameno, por diversos fatores (alterações na intensidade da radiação solar, na inclinação do eixo da Terra e na curvatura da sua orbita em torno do Sol, alterando o clima numa escala milenar), e ainda à disposição dos continentes, alterações nas correntes marinhas e de composição da atmosfera, bem como eventos como o impacto de meteoritos ou a erupção de vulcões, é também mais que certo que a ação do Homem nos últimos dois séculos (pior no séc. XX) tem produzido alterações climáticas, principalmente através da emissão de gases com efeito de estufa, que provocam um aquecimento global do clima.
2.2.1 - Efeito de Estufa - Todos tem ideia do que é uma estufa: envidraçada ou coberta de plástico transparente onde o ar é aquecido. Esta imagem pode e deve ser transposta para compreendermos a atmosfera da Terra que funciona em mecanismo similar relativamente ao planeta, pela existência de gases tão necessários à passagem dos raios solares e à retenção do calor que é irradiado, gases esses sem os quais o planeta teria temperaturas baixas e seria inabitável, destacando-se como principal gás o vapor de água. Todavia quando se fala de gases com efeito de estufa fala-se principalmente de seis compostos, sendo 3 naturais, o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), e os outros 3 fruto das atividades humanas: os hidrofluorcarbonetos (HFC), os perfluorcarbonetos (PFC) e o hexafluoreto de enxofre (SF6). [4]  O dióxido de carbono é o mais nefasto contribuindo para o aumento da temperatura global nos últimos 50 anos e serve como indicador comum para medir todos os gases com efeito de estufa sendo as emissões de todos os outros gases expressas em “equivalentes de dióxido de carbono”. [4]
2.2.2 - Consequências do aquecimento global - São inegáveis as modificações nos ecossistemas que a subida das temperaturas vai provocar, com consequências em perda de área florestal, não só pela seca como pelo aumento dos incêndios e as espécies que vivem no limite de tolerância do calor ou em zonas frias estarão sob maior risco. “Daí a maior consequência advir do aumento da temperatura média, que subiu cerca de 0,6 ºC no século XX, e, até 2100, poderá aumentar entre 1,4 e 5,8 ºC, prevendo-se que o maior aquecimento ocorrerá em latitudes altas no hemisfério Norte e na Antártida” [4]. As alterações surgirão no nível do mar que “poderá subir entre 9 e 88 cm até 2100, pela “dilatação” dos oceanos e do derretimento de glaciares e calotas polares” [4]. A erosão costeira vai aumentar, pondo em risco povoações e infra-estruturas. Os ecossistemas serão muito afetados, como recifes de coral, estuários e mangais, todos sistemas de grande produtividade e que são usados por uma quantidade enorme de espécies como local de refúgio e de reprodução. Os ecossistemas polares serão também muito afetados. Já começamos a sentir, também, fenómenos meteorológicos extremos como dias muito quentes, secas prolongadas, tempestades e cheias.
2.2.3 – Atividades afetadas - A agricultura até pode aumentar nalgumas regiões, mas no geral deverá diminuir e, no essencial, será modificada afetando o equilíbrio natural da biodiversidade dos diversos locais. O risco de desertificação aumentará e ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos também será previsivelmente negativa para a produção agrícola. Na saúde a mortalidade pelo frio poderá diminuir, mas a ocorrência de ondas de calor aumentará a mortalidade devida a problemas cardiorrespiratórios. “Num mundo mais quente e húmido, os insetos que transmitem doenças como a malária, o dengue e a febre-amarela não só estarão presentes por períodos mais longos, como aumentarão a sua área de distribuição. A cólera e as salmonelas também poderão ser mais frequentes, devido, por exemplo, a uma maior incidência de cheias. Outra doença em expansão possivelmente associada a alterações climáticas é a febre do Nilo”. [4]


2.3 - Sobre-exploração dos recursos biológicos - Algumas espécies, tanto animais como vegetais, são sobre exploradas como recurso, ao ponto de serem colocadas em risco de extinção, ou de se desequilibrar o ecossistema em que vivem. Alguns exemplos são a pesca excessiva, a caça excessiva, o abate de árvores para madeira, o abate de espécies para obtenção de peles e mesmo a recolha de borboletas e outros animais para colecionismo. Por exemplo, no mar, assistimos, com cada vez maior frequência a essa sobre-exploração de recursos atingindo espécies de coral e peixes pelágicos, invertebrados (sea cucumbers, lagostas e moluscos), corais e peixes ornamentais.


2.4 – A Poluição - resulta da introdução de poluentes no ambiente, daí resultando efeitos nocivos tanto para os ecossistemas como para a saúde humana. Os poluentes podem ser dos mais variados tipos: substâncias químicas, radioatividade, calor, luz, ruído ou energia. Na água a atividade humana produz efeitos adversos nas massas de água, desde os mares, rios e lagos às águas subterrâneas. Os poluentes da água incluem um largo espectro de químicos e agentes patogénicos e podem causar alterações nas propriedades físico-químicas da água, incluindo a sua temperatura, oxigenação, pH ou condutividade. Os fenómenos que mais ameaçam a Biodiversidade passam pela contaminação microbiológica da água, contaminação da água por nitratos, excesso de matéria orgânica na água, salinização da água doce, acidificação da água, contaminação da água por metais pesados, contaminação da água por pesticidas, contaminação da água por hidrocarbonetos, contaminação radioativa da água, tratamento da água. 
No ar a poluição é a contaminação do ar pela descarga de agentes químicos, físicos ou biológicos que modificam as características naturais da atmosfera e representa um perigo direto não só para a saúde humana, não só através da inalação do ar contaminado, mas também pela ingestão de alimentos contaminados por terem estado em contacto com a atmosfera, mas, também, e essa é, aqui a nossa abordagem, afeta os ecossistemas, na medida em que a poluição do ar facilmente se transfere para a água e muitos poluentes se acumulam na cadeia trófica. Os ecossistemas são ainda afetados pelas chuvas ácidas e pela excessiva deposição de nutrientes no solo. Os poluentes atmosféricos são responsáveis por problemas ambientais globais como as alterações climáticas, já abordados, e o buraco na camada de ozono.
Temos ainda a considerar outros tipos de poluição, como a luminosa e a sonora, sendo que, na primeira, o uso crescente da luz artificial pode, no entanto, causar problemas ambientais e, na segunda que a poluição sonora corresponde a ruído com origem antropogénica que pela sua intensidade e duração prejudica o meio ambiente e a própria saúde humana e, ao contrário da poluição do ar, água ou solos, não deixa resíduos, e quando a fonte do ruído é extinta a poluição termina, por isso tem sido considerada menos importante e menos gravosa. No entanto, a poluição sonora pode causar efeitos crónicos e irreversíveis, que em boa parte ainda estão pouco estudados.


2.5 - Introdução de espécies exóticas - A área de distribuição da maioria das espécies é impedida de se expandir por barreiras físicas, ambientais e climáticas. Um resultado deste isolamento geográfico é que os processos de evolução seguiram caminhos diferentes em cada área do mundo. O ser humano alterou radicalmente este cenário ao transportar espécies de uns locais para os outros. Foram três os principais processos de introdução de espécies:
i) a colonização europeia, dado que os colonos europeus chegaram a todas as regiões do globo levando consigo inúmeras espécies de aves e mamíferos, muitas vezes apenas com o intuito de tornar o campo nesses locais mais parecido com a sua terra natal. Ao mesmo tempo os Europeus trouxeram consigo várias espécies exóticas que introduziram no seu território ou noutras colónias. Exemplos dos dois lados deste fenómeno são a introdução do Pardal europeu na América do Norte, por onde se expandiu rapidamente; e o cada vez maior número de aves exóticas ornamentais provenientes de cativeiro que estabelecem populações assilvestradas na Europa, 
ii) a agricultura, horticultura e pecuária, dado que um grande número de espécies de plantas e animais foram introduzidas longe do seu local de origem, para fins agrícolas ou pecuários. Muitas destas espécies escaparam do cultivo ou da zona de produção e estabeleceram-se nas comunidades locais. 
iii) o transporte acidental, porque muitas espécies são transportadas pelo ser humano sem intenção. Exemplos comuns incluem as sementes que são colhidas em conjunto com as das espécies cultivadas, e depois semeadas acidentalmente noutro local; ratos e insectos que viajam entre continentes em barcos de carga; os barcos frequentemente trazem espécies exóticas no seu lastro; muitas doenças e parasitas viajam com os seus hospedeiros.
iv) Aumento da dispersão de doenças - A acção do Homem pôs em contacto com espécies selvagens, doenças e parasitas com diversas proveniências, pondo em risco a sua sobrevivência.


2.6 – Outros - No entanto se existem ameaças para a agricultura e a pecuária é bom que se tenha noção que elas próprias também podem ser ameaças: a alimentação da população crescente do planeta tem sido, sem dúvida, uma preocupação justificada mas temos de nos interrogar sobre se os meios utilizados têm sido os mais adequados. Sabemos que menos de 30 espécies vegetais fornecem 90 por cento dos géneros alimentares da população mundial. A agricultura em regime intensivo tem sido um dos métodos praticados para produzir alimentos, mas ela tem-se traduzido em algumas regiões em sistemas de monocultura que empobrecem a biodiversidade. Referindo-se às Antilhas, escreveu um autor cubano: «Foi em Cuba que a plantação de cana-de-açúcar causou mais estragos no meio ambiente e na biodiversidade; foi aí onde a monoprodução e a tecnologia estrangeira, a indiferença oficial e o oportunismo económico ganharam o primeiro combate contra a natureza.». Os eucaliptais em Portugal são, também, disso um exemplo (ver vídeo “Mondego”, de Daniel Pinheiro) A «monocultura» de determinadas variedades de frangos domésticos em quintas do mundo inteiro estaria a facilitar a propagação de doenças como a gripe das aves. Alguns cientistas argumentam que “se os países apostassem na biodiversidade e valorizassem as aves típicas de cada região, isso seria uma «barreira natural» ao avanço de alguns vírus.” Temos ainda que considerar que vítimas da negligência ou da ganância do Homem, milhares de espécies animais e vegetais desapareceram da face da Terra ou estão hoje ameaçadas de extinção. São nada menos de 28 270 as espécies já extintas, em perigo de extinção, vulneráveis ou que são motivo de preocupação, de acordo com a mais recente Lista Vermelha elaborada anualmente pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN – organismo sedeado na Suíça que reúne 82 Estados, 111 agências governamentais e mais de 800 ONG).


3 – Considerações Finais

A biodiversidade tem aumentado desde a origem da vida terrestre, embora de forma descontínua, atingindo o seu pico máximo antes do aparecimento da humanidade e tendo vindo a decrescer desde então”. [3]

O problema da redução da biodiversidade assumiu, principalmente nas últimas décadas, proporções nunca antes atingidas, conforme aponta o Relatório da Diversidade Biológica, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) em 1995. “A taxa atual de extinção é cerca de 100-1000 vezes superior à taxa natural. Cerca de 99.9% das espécies terrestres estão extintas e a sobrevivência de muitas está ameaçada, como o Panda na China, os gorilas em África (o Gabão e a República do Congo possuem cerca de 80% da população mundial de gorilas), o lobo e o lince ibérico em Portugal (estima-se que não haja mais do que 50 linces ibéricos em Portugal). Cerca de 8.5% das espécies de vertebrados ameaçadas globalmente ocorrem na Europa e na Ásia Central.” [3]

As atividades humanas têm contribuído para a perda de biodiversidade (à nossa escala temporal), sobretudo, como se expôs pela consequente destruição de habitats pela poluição e sobreexploração e as alterações climáticas são um fenómeno global, cuja causa está associada, principalmente, ao estilo de vida dos países industrializados. 
Temos pela frente uma longa e hercúlea tarefa e a comunidade internacional já entendeu que a única forma de travar, por exemplo, o aquecimento global é através da obtenção de acordos políticos globais que limitem a emissão de gases causadores do efeito de estufa e disso são exemplos a convenção-quadro para as alterações climáticas e o protocolo de Quioto sendo que a conservação da biodiversidade constitui um objetivo fundamental da Estratégia da União Europeia em favor do desenvolvimento sustentável e do Sexto Programa Comunitário de Ação em matéria de Ambiente.

A extinção de espécies é «um fenómeno natural, mas a taxa de extinção a que assistimos actualmente é entre cem e mil vezes superior a tudo o que conhecíamos antes», afirma Anne Larigauderie, diretora do grupo ambientalista Diversitas, sediado em Paris; «É uma perda sem precedentes.»
Os cientistas são unânimes em afirmar que «as perdas de biodiversidade são essencialmente irreversíveis, constituem uma séria ameaça ao desenvolvimento sustentável e à qualidade de vida das futuras gerações». 
Por isso, há que fazer alguma coisa no sentido de reverter a perda de recursos naturais e recuperar, quando possível, as áreas degradadas. Algum trabalho já começou e algumas tarefas permitem vislumbrar preocupação com este assunto verdadeiramente importante e fundamental para a sobrevivência do planeta. 

Fontes e consultas:
•Millennium Ecosystem Assessment (2005) "Causes of Biodiversity change", pp. 8-10. 
• Millennium Ecosystem Assessment (2005) "What are the current trends and drivers of biodiversity change and their trends", pp. 42-59, 
•Myers, N. (1996) “The rich diversity of biodiversity issues” pp. 125-138. In M. Reaka-Kudla, D.E. Wilson, & E.O. Wilson (eds.) Biodiversity II: understanding and protecting our biological resources, Joseph Henry Press, Washington, D.C..
[2] -  http://www.enciclopedia.com.pt/articles.php?article_id=622, consultada em 28 de Março de 2012
[4] - http://www.terramater.pt/?pag=117, consultado em 20 de Abril de 2012,



quarta-feira, 4 de Abril de 2012

POESIA

Todas as Opiniões que Há sobre a Natureza
(Alberto Caeiro)

Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?


Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

in "Poemas Inconjuntos"
(Alberto Caeiro, Heterónimo de Fernando Pessoa)

domingo, 1 de Abril de 2012

Notícia

União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais 
(Fonte do texto, com a devida vénia ao autor: http://www.enciclopedia.com.pt/articles.php?article_id=622)

"A União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN ou World Conservation Union, inglês) é uma organização internacional dedicada à conservação dos recursos naturais.
Fundada em 1948, a sede está localizada em Gland, Suíça, reúne 84 nações, 112 agências de governo, 735 ONGs e milhares de especialistas e cientistas de 181 países, estando entre as principais organizações ambientais do mundo.
A missão da IUCN é influenciar, encorajar e assistir sociedades em todo o mundo na conservação da integridade e biodiversidade da natureza, e assegurar que todo e qualquer uso dos recursos naturais seja equitativo e ecologicamente sustentável.


Estas são as Categorias de áreas de Manejo Protegido que existem:

•Ia - Reserva Estrita da Natureza 
Área de terra e/ou mar que possui algum ecossistema, aspecto e/ou tipo geológico ou fisiológico, importante ou representativo, disponível primariamente para pesquisa científica e/ou monitoramento ambiental. 
•Ib - Área Selvagem 
Grande área de terra e/ou mar não modificada ou pouco modificada, que mantém seus caráter e influência naturais, sem habitação permanente ou significativa, a qual é protegida e manejada de modo a preservar sua condição natural. 
•II - Parque Nacional - Área natural de terra e/ou mar, destinada a: 
1.proteger a integridade ecológica de um ou mais ecossistemas para a geração atual e as futuras; 
2.excluir a exploração ou ocupação inimiga dos propósitos indicados para a área; 
3.fornecer uma base para oportunidades espirituais, científicas, educacionais, recreativas e de visita, que devem ser todas ambiental e culturalmente compatíveis. 
•III - Monumento Natural 
Área contendo uma, ou mais, características natural/cultural que é de valor significativo ou único devido a sua raridade, qualidades representativa ou estética, ou significância cultural inerente. 
•IV - Área de Manejo de Habitat/Espécie 
Área de terra e/ou mar sujeita a intervenção ativa com o propósito de manejo para garantir a manutenção de habitats e/ou satisfazer as necessidades de determinadas espécies . 
•V - Paisagem/Costa Protegida 
Área de terra ligada à costa e mar, onde a interação entre pessoas e natureza ao longo do tempo produziu uma área de caráter distinto com valor estético, ecológico e/ou cultural significativo, geralmente com grande diversidade biológica. Salvaguardar a integridade desta interação tradicional é vital para a proteção, manutenção e evolução de tal área. 
•VI - Área Protegida de Manejo de Recursos 
Área que contém predominantemente sistemas naturais não modificados, manejada para garantir proteção e manutenção a longo prazo da diversidade biológica, embora suprindo ao mesmo tempo um fluxo sustentável de produtos naturais e serviços para satisfazer as necessidades da comunidade."

Notícia

Alterações climáticas ameaçam biodiversidade em Portugal
(Fonte do texto, com a devida vénia ao autor: http://www.enciclopedia.com.pt/articles.php?article_id=622)

Portugal será um dos países mais afetados pelas alterações climáticas em termos de perda da biodiversidade, avisou a associação ambientalista Quercus, alertando para a vulnerabilidade dos ecossistemas às secas e incêndios devido à subida das temperaturas.

No Dia Internacional da Biodiversidade, a Quercus relembrou que o planeta está a perder biodiversidade a uma taxa sem precedentes, sendo as alterações climáticas uma das maiores ameaças à diversidade da vida, juntamente com a destruição de habitats, poluição e proliferação de espécies invasoras. "Os ecossistemas mediterrânicos, incluindo os de Portugal, estão entre os mais vulneráveis a uma subida de 2 a 5 graus centígrados, sob um efeito combinado da seca e dos fogos florestais", referem os ambientalistas num comunicado.

Igualmente alarmante para Portugal, acrescentam, é a diminuição do potencial hidrelétrico entre 20 a 50 por cento, no Sul da Europa, até 2070.
Na Europa, a subida do nível do mar poderá ser até 50 por cento mais acentuada do que a média global e cerca de 20 por cento das zonas húmidas correm o risco de desaparecer até 2080.
"Os anfíbios na Península Ibérica serão especialmente afetados e condenados a viver em áreas cada vez mais limitadas, tal como os répteis, que dependem de charcos e pântanos para a sua reprodução. Quanto às florestas, já estão a sofrer dos Verões excessivamente quentes e consecutivos incêndios florestais, aos quais se irá juntar a problemática da escassez de água", sublinhou a Quercus.
Mais de 40 por cento dos vertebrados existentes em Portugal enfrenta algum grau de ameaça, sendo os peixes o grupo com mais espécies em perigo, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal publicado em 2006.

A avaliação, que abrangeu 512 espécies selvagens de vertebrados no Continente, Açores e Madeira, apurou que quase metade (42 por cento) das espécies estudadas estão ameaçadas ou quase ameaçadas relativamente ao risco de extinção. Cerca de 46 por cento não estão consideradas como ameaçadas (categoria Pouco Preocupante) e sobre os restantes 12 por cento não existe conhecimento suficiente. Os peixes de água doce e migradores apresentaram a percentagem mais elevada de animais classificados em categorias de ameaçadas (Criticamente em Perigo, Em Perigo, Vulneráveis) ou quase ameaçadas: 69 por cento.

A Quercus aponta várias medidas a adotar para preservar a biodiversidade, como a criação de refúgios e a preservação de habitats que permitam uma adaptação de longo termo, o estabelecimento de redes de áreas protegidas terrestres, aquáticas e marinhas e o reforço da investigação sobre as ligações entre alterações climáticas e biodiversidade.

As alterações climáticas já estão a obrigar as espécies a adaptar-se, seja através de mudanças de habitat, alterações nos ciclos de vida, ou o desenvolvimento de novas características físicas.
Porém, nem todas conseguirão fazê-lo. As previsões indicam que cerca de um milhão de espécies serão extintas devido ao aquecimento global.

sexta-feira, 30 de Março de 2012

BGC - tema 1.2

1.2 - O valor da Biodiversidade

La biodiversité est l'une des plus grandes richesses
 de la planète, et pourtant la moins reconnue comme telle
Edward O. Wilson, 1992

Conforme abordámos em tópico anterior dedicado a “Conceitos de Biodiversidade”, a Biodiversidade é propriedade fundamental da natureza, responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas.
Num contexto em que o bem-estar da humanidade é totalmente dependente do fluxo contínuo dos "serviços ambientais", que constituem predominantemente bens públicos sem mercado e preço, sendo, por isso, raramente detetados pelos indicadores económicos atuais, a sociedade atual enfrenta dois grandes desafios: a aprendizagem da “natureza do valor” e a descoberta do “valor da natureza”. O primeiro pretende ampliar o conceito de "capital", de modo a incluir os capitais humano, social e natural; o segundo refere-se ao reconhecimento do valor da natureza, que, mesmo sendo fonte de vida todos os dias, é ignorado pela maioria, pelos mercados, pelos preços, pela avaliação” como defende Stavros Dimas, Delegado da Comissão Europeia do Ambiente, 2008 [1].

Diversidade biológica representa saúde da Terra e constitui base da vida/prosperidade da humanidade.
Falar do “Valor da Biodiversidade”, falar de “valor” é uma questão mais profunda do que à primeira vista parece. Relacionados com “valor” temos, segundo Vaz e Delfino, 2010, que perceber como se encadeiam os seus elementos constituintes surgindo, assim os conceitos de “valor extrínseco” e “valor intrínseco”: o extrínseco é o valor derivado, por exemplo, o valor instrumental das coisas por causa da sua utilização atual ou potencial e o valor artístico que deriva da apreciação por terceiros, podendo ser instrumental, por causa da sua utilização atual ou potencial, ou inerente, como as obras de arte ou outros objetos de apreciação, como os objetos naturais, e o “valor intrínseco”, de difícil explicação, é o valor que uma determinada coisa tem devido á sua própria natureza, e as coisas são “intrinsecamente” valiosas, sem outras razões, porque meramente existem motivações para as promover, apreciar ou proteger devido à sua própria natureza. O valor instrumental tem, assim, a ver com a nossa vontade, interesses e desejos e o intrínseco tem a ver com aquilo que a coisa representa e não pelo modo de uso.
Por outro lado falar de “valor” não pode ser dissociado das suas diversas teorias, desde o antropocentrismo, sencientismo, biocentrismo, ecocentrismo e holismo. Não sendo esse o objetivo desta abordagem (as teorias) não podemos, todavia, deixar de pensar em função dessas encontrando em cada uma delas fortes argumentos uteis na presente “avaliação”.

Assim sendo falar sobre “Valor da Biodiversidade” pode ser visto em várias das perspetivas acima enunciadas: é inegável a utilidade (valor instrumental) que a Biodiversidade tem, pela valorização material que lhe damos, assim como é inegável o valor intrínseco porque há razões para a valorizar em si mesma e não apenas como meio.
Face ao exposto o valor da biodiversidade baseia-se nos seguintes[2], extrínsecos e/ou intrínsecos:
- valor intrínseco – todas as espécies são importantes intrinsecamente, por questão ética e moral.
- valor funcional – cada espécie tem papel funcional no ecossistema: predadores regulam população de presas, plantas fotossintetizantes participam do balanço de gás carbônico na atmosfera, etc.
- valor de uso direto – muitas espécies são utilizadas diretamente pela sociedade humana, como alimentos ou como matérias primas para produção de bens.
- valor de uso indireto – outras espécies são indiretamente utilizadas pela sociedade. P. ex., criar abelhas em laranjais favorece a polinização das flores de laranja, resultando na melhor produção de frutos.
- valor potencial – muitas espécies podem futuramente ter um uso direto, como por exemplo espécies de plantas que possuem princípios ativos a partir dos quais podem ser desenvolvidos medicamentos.
È um dado adquirido que a espécie humana depende da Biodiversidade para a sua sobrevivência. Mas, afastando-nos desta postura antropogénica, mais inegável é que todo um Planeta depende da sua Biodiversidade e esse é, por certo, o seu maior valor.

Fonte de imenso potencial de uso econômico, a biodiversidade é, além das cruciais questões do ar e alimentação, a base das atividades agrícolas, pecuárias, pesqueiras e florestais e, também, a base para a estratégica da indústria da biotecnologia, para as energias, conhecidas ou a explorar, entre muitas outras funções, incluindo até as da lazer. São muitos os valores que a diversidade biológica possui, além dos acima referidos e “tipificados” e que poderiam ramificar para valor ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo, estético, entre muitos.

Um dos aspetos, embora em termos do antropogenismo, muito importante, a ter em conta, tem a ver com o valor económico: muitos cientistas, de mais diversas áreas, insistem nesse aspeto da proteção da diversidade biológica. Deste modo, Edward O. Wilson escreveu em 1992 que a Biodiversidade é uma das maiores riquezas do planeta, e, entretanto, é a menos reconhecida como tal. A maioria das pessoas vê a biodiversidade como um reservatório de recursos que devem ser utilizados para a produção de produtos alimentícios, farmacêuticos e cosméticos. Este conceito de gestão de recursos biológicos provavelmente explica a maior parte do medo de se perderem estes recursos devido à redução da Biodiversidade. Entretanto, isso é também a origem de novos conflitos envolvendo a negociação da divisão e apropriação dos recursos naturais.

Para os defensores acima referidos, uma estimativa do valor da Biodiversidade é uma pré-condição necessária para qualquer discussão sobre a distribuição da riqueza da Biodiversidade. Num trabalho publicado na Nature em 1997, Constanza e colaboradores estimaram o valor dos serviços ecológicos prestados pela natureza. A ideia geral do trabalho era contabilizar quanto custaria por ano para uma pessoa ou mais, por exemplo, polinizar as plantas ou quanto custaria construir uma qualquer estrutura natural vital, por exemplo, para um rio. O trabalho envolveu vários "serviços" ecológicos e chegou a valores de duas vezes o produto interno bruto mundial! Este é o valor económico que a Biodiversidade nos presta, dia após dia, ano após ano…

Pese embora a importância desta abordagem e do estudo acima indicado, é muito redutor avaliar a biodiversidade apenas nesta perspetiva. Assim sendo é necessário ter em conta outros valores, designadamente, os éticos, porquanto há que mudar a forma de o homem se relacionar com outros seres e, sem ter uma análise antropocêntrica, o homem, enquanto espécie pensante e dominante, tem o dever moral de proteger as outras formas de vida seja pela preservação das espécies, seja pelo respeito aos ecossistemas, os relacionados com a estética e a espiritualidade, por ser inegável a ligação entre o bem-estar humano e a sua natureza interior, os de ciência e educação, porquanto a biodiversidade é importante para conhecer salvaguardar, e, acima de tudo, os aspetos da vida.

É porque o homem cada vez mais reconhece o “Valor da Biodiversidade”, ou, para ser mais preciso e coerente, os seus Valores, que está na ordem do dia o Status jurídico da Biodiversidade, reconhecendo-se, assim, que esta deve ser avaliada e a sua evolução, analisada (através de observações, inventários, conservação...), as quais devem ser levadas em consideração nas decisões políticas. Está, por isso, a começar a receber uma direção jurídica [2]:
- “A relação "Leis e ecossistema" é muito antiga e tem consequências na Biodiversidade. Está relacionada com os direitos de propriedade pública e privada. Pode definir a proteção de ecossistemas ameaçados, mas também alguns direitos e deveres (por exemplo, direitos de pesca, direitos de caça). 
- "Leis e espécies" é um tópico mais recente. Define espécies que devem ser protegidas por causa da ameaça de extinção. Algumas pessoas questionam a aplicação dessas leis. 
- "Lei e genes" tem apenas um século. Enquanto a abordagem genética não é nova (domesticação, métodos tradicionais de seleção de plantas), o progresso realizado no campo da genética nos últimos 20 anos leva à obrigação de leis mais rígidas. Com as novas tecnologias da genética e da engenharia genética, as pessoas estão a refletir sobre o patenteamento de genes, processos de patenteamento, e um conceito totalmente novo sobre o recurso genético. Um debate muito caloroso, hoje em dia, procura definir se o recurso é o gene, o organismo, o DNA ou os processos. 
A convenção de 1972 da UNESCO estabeleceu que os recursos biológicos, tais como plantas, eram uma herança comum da humanidade. Essas regras provavelmente inspiraram a criação de grandes bancos públicos de recursos genéticos, localizados fora dos países-recursos.
Novos acordos globais (Convenção sobre Diversidade Biológica), dão agora direito nacional soberano sobre os recursos biológicos (não propriedade). A ideia de conservação estática da Biodiversidade está a desaparecer e a ser substituída pela ideia de uma conservação dinâmica, através da noção de recurso e inovação.
Os novos acordos estabelecem que os países devem conservar Biodiversidade, desenvolver recursos para sustentabilidade e partilhar benefícios resultante do uso. Sob essas novas regras, é esperado que o Bioprospecto ou coleção de produtos naturais seja permitido pelo país rico em Biodiversidade, em troca da divisão dos benefícios.
Princípios soberanos podem depender do que é melhor conhecido como Access and Benefit Sharing Agreements (ABAs). O espírito da Convenção sobre Biodiversidade implica consenso informado prévio entre o país fonte e o coletor, a fim de estabelecer qual recurso será usado e para quê, e para decidir acordo amigável sobre divisão de benefícios. O Bioprospecto pode se tornar um tipo de Biopirataria quando esses princípios não são respeitados.”[2].

Em função do cada vez mais reconhecido “Valor da Biodiversidade”, cabe aqui lugar a avaliar quais são as maiores ameaças: a poluição, o uso excessivo dos recursos naturais, a expansão da fronteira agrícola em detrimento dos habitats naturais, a expansão urbana e industrial, tudo isso está levando muitas espécies vegetais e animais à extinção. A cada ano, aproximadamente 17 milhões de hectares de floresta tropical são desmatados. Estimativas sugerem que, a continuar, entre 5% e 10% das espécies que habitam florestas tropicais poderão estar extintas dentro dos próximos 30 anos[2].
A sociedade moderna - particularmente os países ricos - desperdiça grande quantidade de recursos naturais. A elevada produção e uso de papel, por exemplo, é uma ameaça constante às florestas. A exploração excessiva de algumas espécies também pode causar a sua completa extinção. A introdução de espécies animais e vegetais em diferentes ecossistemas também pode ser prejudicial, pois acaba colocando em risco a biodiversidade de toda uma área, região ou país[2].

Daí ser também pertinente, quando se fala de “Valor da Biodiversidade”, saber com clareza quais e o que são os seus pontos críticos: "um ponto crítico (hot spot) de Biodiversidade é um local com muitas espécies endêmicas. Ocorrem geralmente em áreas de impacto humano crescente. A maioria deles está localizada nos trópicos. Como pontos importantes destacámos o Brasil, que tem 1/5 da Biodiversidade mundial, com 50 000 espécies de plantas, 5 000 de vertebrados, 10-15 milhões de insetos, milhões de micro-organismos, e a a Índia, que apresenta 8% das espécies descritas, com 47 000 espécies de plantas e 81 000 de animais.

É porque o “Valor da Biodiversidade” estar na ordem do dia e fazer parte das preocupações dos mais dirigentes, que, assim, reconhecem que de facto, existe “Valor” que “2010 foi declarado pela ONU o Ano Internacional da Biodiversidade, como celebração da vida na Terra e do valor da biodiversidade para a vida humana”[1]. Assim e em jeito de conclusão fica o retrato desse evento marcante e palavras que o marcaram e que são bem exemplificativas da importância crescente do assunto: o Ano Internacional da Biodiversidade foi lançado oficialmente pela Presidência da nona reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), no Museu de História Natural de Berlim. Na presença de mais de 400 participantes a chanceler alemã, Dra. Angela Merkel, exortou o mundo a tomar as medidas necessárias para proteger a diversidade biológica da Terra. O lançamento oficial decorreu a 11 de Janeiro, dia em que a Agência Europeia do Ambiente lançou a primeira de 10 mensagens comemorativas, designada por Alterações Climáticas e Biodiversidade:

A variedade da vida sustenta o nosso bem-estar social e económico e será cada vez mais um recurso indispensável na luta contra as alterações climáticas. No entanto, os nossos padrões de consumo e de produção estão a privar os ecossistemas da sua capacidade de resistir às mudanças do clima e prestar as suas funções, de que tanto precisamos. À medida que se entende mais sobre as repercussões das alterações climáticas sobre a biodiversidade, torna-se claro que não podemos resolver as duas crises separadamente. A sua interdependência obriga-nos a enfrentá-los em conjunto.” [1]

Com tamanha importância, com tanto valor, é preciso evitar a perda da biodiversidade.

[1] - http://www.camarasverdes.pt/tema-especial/415-biodiversidade-vital-para-o-bem-estar-da-humanidade.html, consultada em 28 de Março de 2012
[2] -  http://www.enciclopedia.com.pt/articles.php?article_id=622, consultada em 28 de Março de 2012

Bibliografia:
- Araújo, M. (1998) Avaliação da biodiversidade em conservação. Silva Lusitana 6(1). Disponível em: http://www.moodle.univ-ab.pt/moodle/course/view.php?id=66651. pp. 19-40.
- Azeiteiro, U., 2009. Biodiversidade e Serviços do Ecossistema. Estudo e Conservação da Biodiversidade. Txt de Apoio – UT1. DCeT. UAb. 
- Lovejoy, T.E. (1996) "Biodiversity: what is it?" In Biodiversity II. Disponível em: http://www.moodle.univ-ab.pt/moodle/course/view.php?id=66651. pp. 7-14
- Vaz, S. & Delfino, A. (2010). Livro de Ética e Cidadania Ambiental. UAb
- Wilson, E.O., 1988. The current state of biological diversity. Pp. 3-18 in Biodiversity, E.O., Wilson and F.M., Peter, eds. Washington, D.C.: National Academy Press.